segunda-feira, junho 02, 2008

Vi Ti nos Meus Sonhos

Depois devorar as paginas de Tell Me Your Dreams (HarperCollins Publishers) escrito por Sidney Sheldon impulsionado por uma leitura estonteante por um enredo que mistura um caso clinico real (Multiple Personality Desorder, MPD), incesto, pedofilia, violação, homicídio, castração das vítimas e, sobretudo, com a vontade da Asheley Patterson (personagem principal) de ter um "sonho normal", uma rotina diária normal (como meu e o do caro leitor) e não uma sucessão de pesadelos que deixa qualquer um de rastos nomeadamente quem ficou cativo nas linhas intensas regadas de suspense do inicio ao fim das trezentos e trinta e seis paginas. Nisto, embarquei na minha cama feliz por saber que a Asheley regressou a São Francisco, Califórnia "liberta" do seus alters, sobretudo do mais perigoso (Tony Prescott) e ter dito que cada um tem uma historia para contar, problemas por resolver e sonhos por construir...
Como quem escuta uma declaração inesperada de amor sinto o coração a palpitar, o cérebro a procurar sinais de um amor deixado nas palavras incompletas, nos gestos espontâneos  e inocentes e nos sonhos que povoam noites em clara a conceber o aproximar dos lábios e a ternura da beleza envolta nos braços de quem tanto desejamos. Contudo, acordo acendo a luz e vejo a passar um serie na TV, uma ficção. Assim, constatei que, no fundo; que no profundo do sentimento existem teias que nos prendem, razoes que nos enfraquece, orgulho que nos mantém cativos em cemitérios ambulantes. Assim, uma decisão sábia, mas, por vezes, emocionalmente ilógico seria escutar o coração e deixa-lo agir por se próprio. O preço a pagar poderia ser lágrimas, lágrimas misturadas com sorrisos que confundem o real com o imaginário; pesar, pesar ou alegria, alegria. Quem sabe? Porém, pelos minutos que foram eternos, pelos sorrisos largos e contagiantes e beijos que marcaram rendicões e pausar das armas, sinto saudades do futuro e orgulho de um passado sempre presente...

Escrito em Sloane Avenue, Londres, Julho de 2008

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domingo, março 02, 2008

Cândida Lembrança

Entre a saudade de uma noite e o acordar aconchegado num dia friorento, prefiro a imagem tenra da companhia altiva, meiga, de geometria perfeita e cabelo maltratado pela água clorificada das torneiras. Ante a vontade de levantar para iniciar o novo dia e aproveitar-se da moleza do corpo alimentado pela sensualidade da pele que se rejuvenesce a cada toque, escolhi esta última tentação…
Levantar-se da cama a determinadas alturas do ano é um martírio, uma fatalidade que a responsabilidade nos obriga e que o sentimento, por vezes, opõe com determinação. Hoje, ocorreu-me a memória da sombra desses dias, num relâmpago sôfrego e espectacular em que o gélido me obriga a esmerar no aconchego. Ou seja, na cobertura, na pele macia dos seios redondos que tocam e marcam as costelas que Adão um dia emprestara à Eva (e a todas as mulheres).
Foi difícil pisar o novo dia. O motivo, o leitor advinha qual terá sido. Sonhei! Sonhei com o Inverno e com as memórias que esta estação do ano me traz. Ainda, assim, fiz um esforço brutal para o evitar; o mesmo que um ladrão faz quando olha para um objecto apetitoso. Foi só fachada: continuei na cama! Na verdade, estava cansado de uma viagem. Saudosa viagem! Por isso, como desculpa embarquei, novamente, na recordação analítica dos momentos que o deleite e a ociosidade proporcionam…
Cumprido oito horas de sono, mais oito minutos de bónus, pulei da cama e fiz setenta flexões de braços para ganhar coragem e prostrar-me debaixo do chuveiro e tomar um duche com água fria. Uma solução mágica para os dias que prenunciam preguiça. Com a água fria e escorrer-me pelo corpo, uma sensação de alívio percorre o cérebro e a alma e me fez dar razão a quem elege o verão como a estação preferida. Tomar banho com água fria, no Inverno, é uma solução mortífera e de baixo custo. No verão, a cantiga é outra... Em contraste, no Inverno elas aquecem-nos a alma, enquanto deliciamos a frescura das maçãs escondidas nas florestas perdidas do Éden. Neste dia, refugiei-me nas cândidas lembranças – uma fuga tentadora para esquecer a calosidade dos dias…

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domingo, janeiro 20, 2008

Quando Penso em Ti…

Estou sentado dentro de um carro com os olhos postos no futuro. À minha frente, através do vidro, contemplo a ponte vermelha a centenas de metros de distância – com muita luz, inúmeros veículos a cruzarem as margens numa deambulação quase paranóica. Debaixo da ponte, pequenos veleiros e grandes barcos andam vagarosamente como quem perdeu a pressa de chegar ao destino. A poucos metros do carro, sinto e vejo o quebrar intempestivo das ondas nas praias que durante verão fazem furor, provocando enchentes espectaculares. Dentro de mim, toca André Sardet: quando te falei em amor. Por isso, mudei os ângulos do meu olhar – perdi o longo alcance – e procurei mirar no meu íntimo, a resposta à multiplicidade de emoções que ocorrem só de saber que ainda vives dentro de mim.
Faço marcha trás e mergulho, sem hesitação, no quilómetro MMI. Nesta baliza da auto-estrada do meu viajar, as andanças nocturnas por vicissitudes da vida; o sentir do cheiro do perfume exalada pelas plantas às altas horas da madrugada; e a beleza entrelaçada pelas palavras que se ouvem no silêncio dos nossos sonhos, fazem me sentir mais eu; e nós mais próximos. O chegar tarde à casa e sentir o gosto de uma amizade demonstrada na lisura dos cereais mergulhados numa tigela de leite bem quente que aquece a alma, ao mesmo tempo que me devolve a força para alterar o ciclo natural do dia, faz-me viajar na curva do tempo à procura da alma que ficou nessa oferta – e que eu, silenciosamente, adorava. Isso compromete-me! Assim, deixei de ver a ponte da liberdade, mandei pôr o ferro no fundo e caminhei, cambaleando taciturno entre olhares apressados, zonas despidas de movimento e assentei no primeiro sítio que calhou para tomar um copo – uma desculpa para refrescar a alma e matar a sede de uma viajante!
Desta vez, por cima de mim, passavam muitos carros apressados; ao meu lado, barcos de recreio e de sonho repousavam pacientemente à espera de utilização; a brisa fresca do rio acompanhava o movimento certeiro e convicto do copo à procura dos lábios ressequidos. Tiro o primeiro gole e sinto uma sensação estranha! Um gosto diferente… de algo que já experimentei e de cuja memória tenho, simplesmente, o eco – disse para mim mesmo, num monólogo rápido e preocupado. Assim, pus-me a devagar sobre a química do precioso e estranho líquido. Demorei eternos minutos a estabelecer ligações, sob olhares furtivos, sons meio ensurdecedores, mas que dava ao ambiente um semblante nocturno, boémio e poético.
Levei, uma vez mais, o copo à boca e num acto suave e de rápida degustação, encontrei a ansiada resposta. A bebida, em si, é normal; estranho é o remake que faz do passado ao trazer para o brilho da noite, o gosto misterioso de um beijo trocado num dos quilómetros da auto-estrada, provavelmente depois de experimentar o primeiro cálice [da bebida em causa], na cidade de ruas tortas e toscas, onde o Mondego irradia a magia na sua passagem apressada a caminho da foz - levando com ele a saudade.

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sexta-feira, outubro 26, 2007

Sonho Com a Saudade

Enquanto que uns repousam no aconchego das camas ortopédicas depois de um dia cansativo eis que levanto da minha e prostro diante do computador para estar mais perto de ti… Se tivesse internet podia pensar em namoros, beijos, fantasias ou quiçá em orgasmos virtuais – se é que já inventaram esta fraseologia!? (risos). Estou no portátil a procurar as letras que juntas falam da saudade, dos nossos passeios à beira-rio, das conversas perante duas chávenas de cafés, dos beijos que ainda soam nesta madrugada solitária como a bravura das memórias de quem vai à fonte procurar inspiração para acalentar a ternura dos dias que mesmo ao nascer trazem a chama de um merecido reencontro: num amanhã que fica sempre adiada.
Hoje sinto que uma parte de mim dorme algures num pedaço do mundo que os geógrafos alcunham de falésia. Levantei da cama, acendi a luz, procurei algo que me fizesse rir, sorrir e rapidamente voltar a dormir. Procurei fotografias, postais, cartas… sem resultado. Continuei casmurro. Foi então que decidi pegar nas lembranças boas que repousavam na candura dos cântaros que outrora, vezes sem conta, foram ao deserto procurar água nas superfícies profundas, no declive suave do rochedo envolto na geometria euclidiana do teu corpo. Por instante fiquei saciado e recordei a areia fina das praias que descalços percorremos à procura de um motivo para selar um dia passado à frente do atlântico. Os inúmeros barcos que víamos partir para mundos distantes, cheios de turistas fomentos em pisar outras terras, beber outras águas e cheirar outras culturas que agora me faz sentir que, também, quero partir. Não quero ficar preso a um sorriso que, por mais encantador que seja, me tortura; que me faz sofrer em nome de um amanhã que nunca chega, de um amanhã que é, simplesmente futuro enlaçado em sonhos…
Sinto-me feliz por cada sorriso que recebo, por cada gesto de carinho que demonstro, mas reconheço que a tua partida fez com que os dias ficassem mais longos, as horas mais torturantes, a minha cama maior… Sinto, também, que gozo uma estranha forma de liberdade. Uma liberdade que me leva a apreciar a beleza sublime da luz, as alegrias que acompanham o viajante num carro a baixa velocidade com vidros simi-fechados na estrada da marginal à procura dos sonhos perdidos no calor da noite, no cheiro amaresiado das praias desertas, no sabor dos versos atirados aos rio e no escutar do lado B enquanto o A toca as mágoas, as tristezas, as ondas cansadas que deixaram de quebrar na praia.
Estou a começar a baralhar as letras, a despoetizar em vez de pensar no amanhã que acabou de dar o seu primeiro grito da aurora esperança. Estou a digitar o pretérito escavando as recordações para afugentar as ondas negativas que, de quando em vez, invadem o prédio, o quarto, a cama e o ser que, calmamente, nela repousa depois de uma jornada laboriosa para poder acordar no dia seguinte pensando no amanhã. Hoje pedi o sono. Amanhã beberei cada letra que hoje escrevi para poder dormir embriagado com a mal-aventurada “saudade” – uma doença fatal que ataca o coração e a alma; que coroe e deixa malezas. Uma patologia perigosa que requer cuidados reservados e vigilância apertada dos seus efeitos… Foi descoberta por familiares de viajantes portucalenses que a tornaram numa marca registada no universo das línguas, da amizade e das mentes que “sofrem de um não sei quê” provocado pela distância…os povos não (lusófonos) dão voltas e voltas para a explicarem ao médico os sintomas e nós, calmamente, dizemos apenas: - Sr. doutor a minha doença é a saudade, passamos à terapia…

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