quinta-feira, abril 23, 2009

Revisitando o Professor Félix Correia

Recordar os nossos professores da escola primária constitui uma viagem emocional à nossa infância. Algo que é indissociável das brincadeiras, das brigas, dos medos, e, sobretudo, da relação que, hoje, mantemos com a escola, tendo em conta a criança (aluno/a) que transportamos dentro de nós. Essa jornada pode ser feita com sorriso, caso o passado deixou saudades, ou com mágoas, se pelo contrário, o mesmo deixou correr lágrimas que o tempo não soube enxugar. Em qualquer dos casos, espera-se um bom momento de psicanálise. São relatos que comovem a qualquer pessoa, quer se trate de alegrias, quer se trate de traumas que, infelizmente, ainda, perseguem quem os testemunhou.
A figura central deste texto, nunca foi à televisão, nunca viajou para fora de Cabo Verde, nunca recebeu um prémio pelo serviço prestado à sua aldeia e, de uma forma mais lata, ao seu concelho e país, mas é um ícone para todos os habitantes da sua aldeia natal, Ribeirão boi (e arredores). Iniciou a sua actividade docente, ensinando a ler e a escrever aos jovens e adultos de Ribeirão boi e Serelho (Concelho de Santa Cruz), gratuitamente.
A experiência adquirida na alfabetização de adultos motivou-o, a candidatar-se ao lugar professor-monitor para poder, assim, leccionar no sistema formal de ensino. Foram registadas, neste sentido, várias tentativas infrutíferas. Contudo, depois de muita insistência, conseguiu o almejado lugar. Ainda assim, alcançado o seu objectivo, depois das aulas com as crianças, proseguia, religiosamente, o contacto com os adultos, na sua maioria, mulheres que nunca foram à escola ou então que a abandonaram, precocemente, sem saber ler e escrever ( por coação dos pais ou, então, para salvarem a pele…
O professor Félix - como é conhecido, além de exímio na arte de ensinar e praticante confesso da tutoria, tinha um sentido de humanidade que o fez granjear respeito entre miúdos e graúdos. Por diversas vezes, tirou, do seu bolso, o dinheiro para nos garantir uma refeição quente (medida legalmente consagrada), quando os géneros do PAM (Programa Alimentar Mundial) se atrasavam. Além disso, vezes sem conta, utilizou a capela da aldeia para nos dar aulas, quando outras alternativas falhavam. Recordo-me de uma época, quarta classe, estar com problemas numa determinada disciplina e durante o intervalo, enquanto os meus colegas brincavam, ele chamava-me ao quadro e certificava, com delicadeza, se eu tinha dominado certos conteúdos e atingido o nível de proficiência para novas aprendizagens. Hoje, relembro o seu gesto como um incentivo para o meu percurso escolar que ele perspectivava longo.
Como qualquer pessoa, o professor Felix também tinha os seus defeitos. Apesar de ter nascido e vivido numa aldeia agrícola nunca se envolveu activamente nos trabalhos campestres. O seu gosto era ensinar e fazia-o com as subtilezas dignas de um mestre.
Félix Correia Duarte desapareceu do mundo dos vivos, mas a sua memória fica para sempre conservada no meu coração e, certamente, da maioria dos seus alunos. Agora, cabe-nos lutar para preservarmos o seu legado.
Para mim, ele foi o nosso verdadeiro Paulo Freire. Dedicou a sua vida a encorajar-nos a ver para além da enxada e da pequenez da nossa aldeia…Queria que perseguíssemos a linha do horizonte.

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domingo, março 30, 2008

Avaliação dos Professores: necessidade ou capricho?

Face aos últimos desenvolvimentos do mediatizado tema da avaliação dos professores e da consequente irridutibilidade da ministra da educação na defesa do processo, ignorando o diálogo frontal, o Edukamedia – observador atento da realidade educativa – decidiu analisar uma matéria com muita opinião publicada na semana que terminou com uma “marcha de indignação” nacional dos professores, convocada por uma organização sindical.
O processo de avaliação dos professores começou mal. O Ministério da Educação deveria, na minha modesta opinião, agir proactivamente, ou seja, antever as reacções dos professores, explicitando as vantagens e eventuais perdas (negociadas) com a realização da avaliação do seu desempenho profissional. Devia, ainda, agir perto dos professores nas escolas, apresentando as linhas gerais e específicas das intenções do governo sobre o assunto em apreço e privilegiar o debate público e frontal com professores e organizações que os representam. Os professores (se é que não lêem os documentos como suspeita a ministra e o senso comum) parecem, por seu lado, cair facilmente nas técnicas eficazes dos sindicatos: pegar nas ambiguidades da legislação e fazer delas a questão central da discussão, deslocando o foco do essencial para o acessório (ainda que este não seja, de todo, desprezível).
Todos concordamos que a avaliação dos professores é uma necessidade legítima de um sistema educativo que quer-se melhorar. É impossível melhorar as nossas escolas sem o comprometimento dos docentes. Neste sentido, importa ouvi-los sem esquecer que o corporativismo e a mediatização das razões do seu desencanto dificultam a resolução atempada dos problemas. A discordância geral em toda esta “trapalhada” parece ter como questão central a pressa da ministra, Maria de Lurdes Rodrigues, dizem os críticos. No entanto, pergunta o Edukamedia, se querer avaliar ou implementar um processo com quarenta anos de atraso se pode ser considerado pressa ou capricho de uma governante. De que lado está verdade? O que pensa o leitor?

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sexta-feira, outubro 05, 2007

professores Com P

Este texto começa mal, mas com boas intenções. A descriminação no título prenuncia a certeza de homenagem aos professores com p maiúscula – esforçados, carinhosos, justos, que cuidaram com a vigilância apertada a nossa aprendizagem nos bancos e carteiras da escola – e que deles hoje lembramos com saudade. No presente dia, comemora-se o dia internacional do professor e é justo recordar que parte do que hoje somos (pela positiva e pela negativa) devemo-lo aos nossos mestres!
A Maria João queixa-se dos cuidados excessivos do professor que a deixou divorciada da escola na primeira semana de aulas. “Eram outros tempos…” – refere a octogenária. A dona Cândida recorda, por sua vez, de como dominava o nome dos rios, montes, serras, linhas ferroviárias de Portugal e das “áfricas”. “A escola era a do meu tempo onde os professores ensinavam e os alunos tinham que aprender” – profere com saudosismo a utente de um lar de idosos que falava enquanto comia a sua sopa. O sr Francisco lembra (com amargura) os caminhos calcorreados a para chegar à escola e (com satisfação) os momentos que passava debaixo do sobreiro numa turma apinhada de gente faminta em saber escrever e a ler o destino. “Lembro com saudade os tempos da escola” – recorda o antigo trabalhador da Cooperativa de União Fabril (CUF) que o edukamedia encontrou a jogar cartas com os amigos na avenida do Bocage, no Barreiro.
Os professores são eternos como os nossos pais: culpabilizamo-los muitas vezes, injustamente, pelos fracassos e pouco elogios reclamam dos nossos sucessos. Ultrapassei grande parte dos meus professores (da primária e dos primeiros anos da secundária) em graus académicos, mas, ainda assim, não esqueço que foram eles que me ensinaram as primeiras letras; que estão na base dos meus risos eufórico quando na segunda classe dizia aos meus colegas que já sabia ler os livros do primeiro ano do ciclo preparatório; com eles aprendi capítulos de história, conheci os nomes das terras e dos povos, bem como os teoremas e os axiomas que me alumiaram a minha razão; enfim, fizeram de mim um alfabetizado.
Neste dia internacional dedicado aos professores a ocasião exige, por um lado, festas, comemorações e distinções (sempre merecidas) e, por outro, reflexão uma vez que o acto de ensinar é, cada vez mais, complexo e desmotivante em certos contextos e em certos países. A desmotivação dos alunos dentro da sala de aula, o despovoamento das regiões, os ataques da sociedade à escola e a desmotivação crescente da classe docente obriga-nos (incluindo prezado leitor) a uma reflexão profunda sobre o “ser professor” e sobre o papel da escola num mundo com milhões de analfabetos, nos países com altos níveis de ileteracia e nas sociedades com uma percentagem significativa de professores desempregados ou em risco de perder o emprego.
Alguns teóricos (como, por exemplo, Ivan Ilich) preconizaram o fim da "escola", mas a escola como instituição, quanto a mim, será eterna. Contudo, aposto em upgrades das suas competências e responsabilidades sem, no entanto, deixar de reforçar as condições aos (bons) professores para fazerem o que mais gostam (ou que acabaram por gostar) – ensinar. Basta falar com uma criança ou adolescente para se perceber que, tirando a obrigação de assistir as aulas, a escola é o lugar mais “fantástico” do mundo. Isto obriga-nos a uma reflexão desapaixonada sobre as salas de aulas e acerca dos professores e “cétores” que nelas ganham a vida.

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